Tom Joad, um jovem que acaba de sair da prisão em liberdade condicional, retorna para as terras, no interior de Oklahoma, de sua família, em busca de encontrar os parentes que não tem contato há quatro anos. Chegando lá — por meio de uma carona, que nos apresenta as características básicas do personagem, assim como o motivo da prisão, que serão as bases de sustento para suas ações ao longo do filme —, Tom se depara com o antigo pregador da região, Jim Cassy, que afirma que não poderia seguir com os sermões pois, além dos relacionamentos com as mulheres, ele não tinha respostas, e um pregador precisa de respostas e não perguntas, insiste ele. Ambos seguem em direção a casa da família de Joad enquanto conversam sobre o pai dele, a região e como as coisas mudaram ao longo do tempo em que esteve fora. A partir de outro personagem, que eles encontram quando chegam na casa abandonada da família, que é nos introduzido o incidente que guiará toda a narrativa: as famílias da região tiveram suas casas destruídas e suas terras tomadas pelo banco, sendo deixadas à miséria. Os Joads, após terem abandonado sua casa, foram ficar com outro parente da família, John, que também está prestes a perder a propriedade para a instituição bancária. Após chegar lá, eles dão prosseguimento a mudança para Califórnia, onde um panfleto anuncia que há muitas oportunidades de trabalho.
É na viagem para a Califórnia que o sofrimento se faz mais evidente: perda de familiares ao longo do trajeto, o pouco dinheiro que não os permite se alimentar bem, o caminhão que ameaça quebrar a qualquer momento, o tratamento agressivo para os migrantes de Oklahoma em outros estados, são ações que vão denunciando a luta por sobrevivência, por dignidade enquanto ser humano. No início do filme um letreiro já nos alerta que esse é uma viagem em busca de coisas simples que deveriam ser direito a todos os cidadãos: paz, segurança e um lugar para ser chamado de lar, mas que a sociedade parece os privar de possuir.
"Não são humanos. Nenhum humano viveria desse jeito. Um ser humano não aguentaria tanta miséria."
É a partir do olhar de personagens que aparecem ao longo da viagem que a ideia de coletivismo, de desumanização, de privação, é passada. Em um momento, durante uma parada para reabastecer, um dos personagens vai a uma lanchonete comprar pão e após o pequeno conflito da cena dá-se a resolução por meio do coletivismo dos que estão lá dentro para ajudar os pobres viajantes que buscam reerguer-se. Até mesmo nos comentários dos empregados de postos de gasolina nos traz a consciência do quão reduzidos à algo aquém do humano estão os personagens perante os olhos de terceiros, perante os olhos da sociedade. E essa desumanização vai se tornando cada vez mais presente e ciente, nas condições quase que escravas de trabalho em fazendas, ou na forma hostil que os policiais e fazendeiros agem com os agricultores: promessas falsas de empregos, baixo salário e abuso de autoridade são impostas aos que não são mais considerados humanos, como denuncia um personagem em uma cena anterior. Quando eles finalmente encontram uma oportunidade, a primeira coisa que os permeia é a dúvida do que o que está acontecendo é certo, seja por causa do aglomeração e interpelação de policiais na entrada da fazenda, ou pela forma como eles são tratados dentro da propriedade. Tom não aceita ficar em dúvida e sai em busca de respostas, após escapar de um policial que o impedia de perambular pela propriedade, ele se encontra novamente com Jim, que foi preso em um incidente anterior, que traz à tona a ideia do senso de união para a mudança da situação deplorável que os agricultores se encontram.
Não é de se espantar que no momento que essa família, quase que se desintegrando perante as humilhações e os sofrimentos enfrentados, encontra outro lugar — que oferece água encanada, um espaço para dormir e bailes para se divertirem — é a suspeita que permeia os seus pensamentos, apesar de não haver nada para se suspeitar. Essa sequência é outra evidência do tema da obra: que somente através de uma união entre os pares se dará a conquista de dignidade enquanto ser humano, da conquista de direitos básicos. E no fim da obra essa ideia torna-se ainda mais clara durante o monólogo de Tom, prestes a fugir do acampamento para escapar da polícia, com sua mãe: "Onde haver luta para que os famintos possam comer, estarei lá. Onde um policial estiver batendo num sujeito, eu também estarei lá."
"As Vinha da Ira" é uma obra atemporal, que permeia a condição humana: o sofrimento, o luto e a busca por dignidade e de um lugar que possa ser chamado de lar.


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